Criatividade é a palavra que define bem a essência de Samantha Machado. Vista como uma das apostas da Warner Music Brasil para 2020 (já falamos disso aqui), a paulistana lançou seu primeiro álbum, “MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE” (ou “Multifacetada em Lapidação Constante”), nesta sexta-feira, dia 17.

Em nossa primeira conversa com a cantora, ela nos contou um pouquinho sobre seus projetos e conceitos. E o mais forte de tudo isso, se comparado com o agora, é que a cantora manteve sua definição de “mistura de meras formalidades, metáforas, dialetos e uma sede insaciável de descobertas em todos os sentidos” em seu disco.

Apesar da ideia inicial de dividir o projeto em três volumes, o primeiro já lançado com cinco músicas, a estratégia mudou e o álbum completo, com 14 faixas, trouxe mais do que Samantha busca mostrar como artista.

Quando se trabalha com arte, é difícil escrever críticas a respeito. É um cuidado pessoal que eu, Eduarda, tenho como jornalista. A verdade é que, na minha concepção, resenhar o lado artístico de alguém é um desafio. Afinal, cada um tem uma percepção diferente da obra, incluindo o próprio artista. Claro que o objetivo da mensagem é um só, mas a forma como ela é sentida é que muda.

Por isso, gostaria de deixar claro que, quando ouvi as músicas deste álbum, analisei a composição de uma maneira pessoal, levando em consideração um pouco do que pude conhecer quando conversei com Samantha.

“Pirata” é a canção que abre o disco e uma das que mais carregam metáforas na letra. Com participação de SóCiro, a música tem uma pegada mais lenta, capaz de remeter até ao balançar de um barco no meio do mar. Uma sensação bem semelhante ao sentimento de querer se entregar a algo novo, um descobrimento no qual vamos devagar, sem saber o que realmente se passa.

“Questão de Tempo” segue quase que no mesmo ritmo, trazendo, desta vez, a participação de Leo Rocatto. A canção que quebra um pouco a vibe de cautelas e incertezas é “Instagram”. A faixa tem uma pegada mais triste no estilo hip-hop e a voz de Lucas Kweller na música dá mais dinâmica ao diálogo apresentado na letra.

“Controle” me lembrou um pouco o estilo das canções de Vanessa da Mata e parece ter vindo cheia de sentimentos.“Só iludiu você, só atrasou você, só distraiu você. Essa vontade de sempre estar no controle”. Uma mensagem bem direta que aqueles já sentiram-se limitados em um relacionamento vão entender.

“Eles Querem”, com Diomedes Chinaski, é uma das canções mais empoderadas do disco. Fala sobre luta, voz, lugar, posicionamento e interesses. A faixa também tem uma pegada mais voltada ao hip-hop, com uma mistura de batidas, assim como em “Luta”. A diferença entre as duas é que “Luta” parece mais uma mensagem pessoal, enquanto “Eles Querem” é um recado para a sociedade.

Quase na metade do disco, “Constelações” entra como um conselho: o de que o céu, às vezes, pode ser a resposta. Não literalmente, claro – mais uma vez, as metáforas de Samantha -, mas como uma reflexão. Por outro lado, “Jeito Difícil”,  em colaboração com GUHHL, vem como um complemento de que nem sempre tudo será fácil (nem mesmo achar as respostas ou sinais que a gente tanto procura).

Na sequência, caminhando para o final do álbum, “Humanos” me pareceu ter certa proximidade com o reggae. E talvez seja isso mesmo. Afinal, “somos humanos tentando acertar, […] sempre a navegar num mar sem fim”.

A décima faixa do disco, “Boneca de Lata”, foi uma surpresa. Ela quebra o clima de calmaria e reflexões que o disco apresentou até aqui. Com trechos da música “Boneca de Lata”, clássico infantil, parece que ela veio para desamassar as batidas que as outras faixas causaram até então.

“Cigana” já volta mais para o estilo principal do projeto, trazendo um pouco dos costumes do povo cigano como um alguém buscando descobrir e entender algo que tanto o incomoda. Logo, “Não Fiz Por Mal” também compõe a lista de mais tristes. O ritmo por si só já parece um pedido de desculpas e, em conjunto com a letra, mostra um sentimento de culpa associado ao jeito de ser.

Descrevendo a personalidade de uma mulher que se arrisca, “Coisa Séria”, a penúltima faixaparece ser uma mensagem bem pessoal da própria Samantha, a começar pela abertura, que conta com um breve recado da cantora.

E para fechar, mais metáfora à la Samantha Machado. “Sementes”, com participação da canadense Chewii, é uma afirmação. “O plantio é livre, baby, mas a colheita, não”, diz um dos trechos. Cantada de um jeito mais maduro e acelerado, apesar da sutileza do violão ao fundo, a entrada de Chewii na música parece ter casado perfeitamente com a voz de Samantha.

“MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE” faz jus ao nome e vem carregado de facetas em lapidação constante. Em cada canção um questionamento e uma mensagem sobre erros e acertos que qualquer ser humano fez (ou ainda vai fazer) na vida. Samantha Machado chega com seu primeiro álbum, produzido por Cayo Chaves, em busca de espaço para mostrar que a música nacional não para de crescer. Não deixe de ouvir!

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